BLOG DO CARPENEDO

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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Grécia como um modelo em escala para a Europa by Carta Maior


A Grécia não tem peso suficiente para desequilibrar financeiramente a Europa, pois representa apenas algo como 2% da eurozona, mas o que acontece nela é uma espécie de modelo em escala reduzida do cenário europeu e norte-americano que inevitavelmente seguirá o curso que ela tomar. Os neoliberais incrustados no Banco Central Europeu, na Comissão Europeia e no FMI tentam proteger de perda total a finança privada inflada pela maior especulação da história do capitalismo. Dificilmente serão bem sucedidos. O artigo é de J. Carlos de Assis.
J. Carlos de Assis (*)
A Grécia não tem peso suficiente para desequilibrar financeiramente a Europa, pois representa apenas algo como 2% da eurozona, mas o que acontece nela é uma espécie de modelo em escala reduzida do cenário europeu e norte-americano que inevitavelmente seguirá o curso que ela tomar. Sob o nome um tanto pomposo de consolidação da dívida pública grega, os neoliberais incrustados no Banco Central Europeu, na Comissão Europeia e no FMI tentam proteger de perda total a finança privada inflada pela maior especulação da história do capitalismo. Dificilmente serão bem sucedidos.

No meio de múltiplos dados e estatísticas bilionárias e trilionárias divulgadas diariamente pela imprensa cobrindo praticamente o mundo todo, é muito fácil para o homem comum perder a perspectiva do que de fato está acontecendo na economia planetária. Contudo, em termos conceituais, tudo é muito simples. Especulou-se demais a partir do mercado imobiliário americano e de alguns países da Europa (Espanha, por exemplo). Essa especulação vazou para o mundo todo através dos sistemas financeiros globalmente conectados. Uma enorme bolha financeira, formada por lucros fictícios, descolou-se da economia real. Seu valor efetivo era uma fração do valor de face.

Toda bolha financeira um dia estoura. Às vezes, no mercado acionário. Outras vezes, quando se exagera nos financiamentos externos (crise dos juros no Terceiro Mundo no início dos 80). Em geral, para que a esfera financeira especulativa se reconcilie com a economia real, os detentores dos créditos se defrontam com perdas certas. Isso, contudo, pode ser atenuado no mercado de títulos onde parte das perdas são patrimoniais e recuperáveis: se a pessoa não precisar de vender as ações no curto prazo, pode esperar melhores condições de mercado mesmo que isso leve anos. Já no mercado de dívida bancária a situação é diferente.

A especificidade da crise atual é que ela resultou de especulação no coração do sistema bancário americano e mundial. Os bancos ofereceram créditos, embrulharam os créditos em títulos arriscados, embaralharam títulos com outros títulos, venderam para seguradoras e fundos, recompraram de seguradoras e fundos, e sancionaram a especulação imobiliária na base oferecendo empréstimos para quem não podia pagar. A partir de 2007, os mais espertos já sabiam que isso não ia durar muito. Com efeito, em 2008, a crise estourou quando o Lehman Brothers, o quinto maior banco de investimento dos Estados Unidos, simplesmente quebrou com bilhões de títulos podres em carteira.

Nos Estados Unidos, as autoridades do Tesouro e do Fed imaginaram inicialmente poder deixar que o mercado “liberal” resolvesse a crise. Logo verificaram que, sem interferência oficial, todo o sistema capitalista, a partir do núcleo bancário, colapsaria. O Bank America e o Citigroup, os dois maiores, estavam em pior situação: o Governo teve que estatizá-los parcialmente. Em seguida, foi feito um teste de stress em relação aos outros 17 maiores conglomerados bancários comerciais, constatando-se que o Fed teria que manter suas torneiras de crédito subsiado abertas para garantir o sistema funcionando.

Nos Estados Unidos, porém, depois do custo inicial de US$ 800 bilhões ainda no governo Bush, a sustentação do sistema ficou em sua maior parte a cargo do Fed, sem que isso caracterizasse um subsídio irrecuperável. De qualquer forma, o sistema se beneficiou largamente de condições financeiras que permitiram, e ainda permitem, excelentes condições de arbitragem: os bancos tomam dinheiro a um custo de quase zero por cento do Fed e o aplicam, sem risco, nos títulos do Tesouro rendendo 3,5%. É uma simples operação eletrônica, sem qualquer custo. Com isso, facilitou-se o processo de financiamento requerido pelo pacote fiscal – este, sim, à conta do Tesouro e do cidadão – de US$ 787 bilhões do governo Obama, lançado no início de 2009.

Entretanto, a salvação bancária americana é um fato que está longe de ter sido superado. Giram no mercado cerca de US$ 6 trilhões em hipotecas, estimando-se que algo como US$ 1,5 a US$ 2 trilhões sejam de perda certa quando chegar seu vencimento. Os bancos terão de renegociá-las e, principalmente, fazer lucro a curto prazo ou captar no mercado os recursos necessários para cobrir essas perdas pois, caso contrário, quebram. Como são grandes demais para quebrar, eventualmente terão de ser salvos pelo governo, a despeito do risco moral e da indignação dos cidadãos que se verão espoliados pela especulação privada em mais essa rodada.

Na Europa o comprometimento estatal foi mais longe. Os governos tiveram que salvar seus bancos injetando bilhões de dólares em seus caixas. Alguns, como o inglês Royal Scotland Bank , tiveram de ser estatizados (*). O mesmo destino tiveram os bancos irlandeses. Neste caso, para evitar sua quebra efetiva, foi o Estado que virtualmente quebrou. Na pequenina Islândia, o governo, pressionado por plebiscitos, foi mais sábio: deixou quebrarem três bancos que, em comparação a seu PIB, eram gigantescos. Até na Alemanha o segundo maior banco, o Commenzbank, teve que ser parcialmente estatizado. Note-se que, na zona do euro, a salvação dos bancos ficou quase totalmente a cargo dos tesouros – portanto, dos cidadãos -, já que o BCE limitou a compra de títulos públicos dos governos.

O circuito da crise financeira é, pois, o seguinte: especulação exagerada no mercado de hipotecas, inadimplência, quebra ou ameaça de quebra dos bancos mais expostos e mais ambiciosos, intervenção dos governos para impedir a quebra dos muito grandes (oito centenas de médios e pequenos foram deixados ir à garra só nos Estados Unidos), programas de ajuste fiscal para reduzir o consequente déficit e a dívida pública dos governos a pretexto de tranquilizar os mercados quanto a seu pagamento, destruição do estado de bem-estar social. Isso funcionará? Claro que não, bastando ver a situação de Irlanda, Portugal e Grécia, todas vítimas dos programas de ajuste, e todas sem saída. E não é preciso esperar muito para surgirem as consequências do desastre não só nas ruas de Atenas; é que se verá, no resto da Europa, que de te fabula narratur.

Economista e professor, coautor, com o matemático Francisco Antônio Doria, de “O universo neoliberal em desencanto”, Ed. Civilização Brasileira. Esta coluna sai às terças também no site Rumos do Brasil e no jornal “Monitor Mercantil”, RJ.

(*) CORREÇÃO: O Barclays, informa Anthony Dovkants, Managing Director da FTI Consulting Brasil, representante do banco no Brasil, é privado e não público, como afirmava o artigo originalmente.

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quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Italianos do Sul retomam o caminho do exílio diante da crise e da pobreza

Nápoles perdeu 108 mil habitantes; a faixa dos 15 aos 34 anos representa a maior parte do êxodo
A história se repete, e isso é um mau sinal. Diante da crise e da pobreza, os italianos do Sul estão retomando o caminho da emigração. Nos últimos dez anos 58 mil pessoas deixaram o Mezzogiorno [sul da Itália]. Nápoles (Campanha) perdeu 108 mil habitantes, Palermo (Sicília) perdeu 29 mil, Bari (Puglia), 15 mil. Em 2010, 134 mil “terroni” (algo como “caipiras”, como os chamam os simpatizantes da Liga Norte) foram se se estabelecer ao norte da Península, e 13 mil atravessaram a fronteira para morar no exterior.
Esses números alarmantes foram publicados na terça-feira (27) pelo Svimez, uma instituição que desde 1946 observa a economia do Mezzogiorno. “Se nada for feito, assistiremos a um verdadeiro tsunami demográfico”, conclui esse relatório.
A faixa dos 15 aos 34 anos representa a maior parte desse novo êxodo. Se a tendência não se reverter, serão somente 5 milhões deles, contra os 7 milhões de hoje, os que continuarão a viver no Mezzogiorno até 2050. Aqueles com mais de 75 anos representarão então 18,4% da população total, contra os 8,3% de hoje. As causas são evidentes. Enquanto o crescimento deve ser de 0,7% em 2011 para a Itália inteira, ele não passará de 0,1% no Sul, onde a taxa de ocupação dos jovens é de 31,7%. Somente a agricultura ainda oferece um pouco de atividade. Já a indústria corre o risco de ser pura e simplesmente extinta. O Svimez calcula que seria necessário investir 60 bilhões de euros para permitir que o Sul compense seu atraso. Embora o Estado, que se encontra endividado em 20% do PIB, tenha pouca verba e não muito mais vontade política, a União Europeia possui mais. Foram colocados 35 bilhões de euros à disposição da Itália para o período de 2007-2013 como ajuda às regiões desfavorecidas. Mas somente 33% dessa verba foi utilizada…
Não tínhamos todos esses números na cabeça quando fomos, na segunda-feira (19), à Casa do Cinema em Roma, para a projeção de “Ritals”, um documentário de Sophie e Anna-Lisa Chiarello, cuja transmissão deve ser disputada pelas emissoras de TV de ambos os lados dos Alpes. As irmãs Chiarello não foram muito longe para falar sobre imigração. Dos 30 milhões de italianos que deixaram o país em 150 anos, elas escolheram se interessar primeiramente por sua própria família: pai, mãe, tios e tias que, entre o final dos anos 1950 e 1960, deixaram Corsano (Puglia) para se estabelecerem em Enghien (Val-d’Oise).
Mas, indo além de uma simples crônica íntima, enriquecida por trechos de filmes de família em Super-8, “Ritals” conta também a dor frente ao exílio. Vincenzo e Maria, os dois principais protagonistas desse documentário terno e inspirado, lembram, diante da câmera de suas filhas, seus tempos de vacas magras (ele foi pedreiro, e ela, costureira) em um país, a França, não completamente

hostil, mas não totalmente acolhedor para os “ritals” [apelido pejorativo para os imigrantes italianos na França]. Aqui, são os detalhes que revelam melhor do que as estatísticas do Svimez a dor nunca apagada do desenraizamento: o medo diante das árvores abundantes e opressoras da região de Île-de-France para Maria, que só conhecia até então os pinheiros e as oliveiras de Salento; a dificuldade quase insuperável para um italiano de ler a palavra “beaucoup” quando, na Itália, quatro letras bastariam para escrevê-la.
Vinte e cinco anos depois, os Chiarello fariam o caminho inverso para voltar a Corsano, de fortuna feita (não totalmente). Dos 30 milhões de emigrantes italianos, 10 milhões também fariam o caminho de volta ao país. Após centenas de domingos passados falando sobre o país, sentados à mesa, eles voltaram para a Puglia. Italianos demais para se sentirem franceses, eles se viram quase que franceses demais para continuarem sendo totalmente italianos. Biculturais para sempre, deslocados em todos os sentidos do termo, os Chiarello agora vivem “no meio do caminho”, misturando as línguas e as identidades, e fazendo cada vez mais idas e voltas. Ao mesmo tempo pessoal e universal, político e sentimental, “Ritals” nos mostra aquilo que os números não dizem. Partir é um sofrimento, voltar é outro.
Encontrar marcas e dar um rosto às estatísticas é também o objetivo do Cisei, o Centro de Estudos da Imigração de Gênova (Ligúria), de onde partiram cerca de dez milhões de italianos na direção do Brasil, da Argentina, dos Estados Unidos. Desde sua fundação, o Cisei já reuniu 3 milhões de fichas descritivas de migrantes. Reunidas em uma base de dados, elas podem ser consultadas na internet pelos “italianos do outro lado do mundo” e por seus descendentes, que são convidados a completá-las. Cartas, passaportes, fotografias, o Cisei recebe todos os testemunhos para “preservar a memória desse êxodo”, explica seu presidente Fabio Capocaccia. Um anexo do Museu do Mar e da Navegação de Gênova lhes será dedicado a partir do dia 19 de novembro, como uma espécie de Museu de Ellis Island ao contrário.
Estranhamente, embora a imigração em massa seja um dos eventos estruturadores da identidade italiana, não existe nenhum museu nacional, nenhuma fundação dedicada à questão. Repressão? Pudor? Um pouco de tudo isso, certamente. Sentimentos conflitantes demonstrados justamente pela letra de “Rital”, uma música escrita em 1983 por Claude Barzotti, que não é tão leve quanto parece: “Eu sou rital e vou continuar sendo/E na fala e no gesto/Suas estações se tornaram as minhas/Minha música é italiana/Sou rital em minhas raivas/Em minhas gentilezas e em minhas preces/Tenho a lembrança de minha espécie/Sou ritual e vou continuar sendo”.

Philippe Ridet

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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Por que o RS optou pelo pior

O Rio Grande do Sul porta uma riqueza cultural única no Brasil, que resulta da contribuição de múltiplas nacionalidades e etnias - algumas autóctones, como as diversas nações etnolinguísticas que tivemos e temos (sem jamais esquecer o holocausto do bravo povo Charrua, que preferiu o sacrifício da vida a se deixar evangelizar pelos jesuítas); outras, exóticas, como europeus, asiáticos e africanos. Temos comunidades representativas de todos os continentes, que aqui se expressam, se miscigenam, e de alguma maneira contribuem para o nosso vasto painel cultural chamado Rio Grande do Sul.

Todavia, somos conhecidos como “gaúchos”. Ou melhor, o pensamento político hegemônico achou cômodo e funcional adequar um velho vocábulo marginal e desprestigiado - o gaúcho - para identificar de forma grosseira e imperfeita o tipo humano mais meridional do Brasil. Logo, mesmo a muque, somos gaúchos. Um gentílico reciclado e remodelado para representar o povo sulino, portanto, um locativo arbitrário e insuficiente - reducionista e ficcional.

O significado das palavras é histórico, porque muda conforme as ondulações do tempo e das vontades. Camões (ao lado) dizia que mudam-se os tempos e mudam-se as vontades. Gaúcho já foi o tipo marginal, uma espécie de andarilho em busca de um porto seguro, e que desconhecia as normas sociais estabelecidas. É, inclusive, uma expressão multinacional, comum à região platino-pampeana. “Gauchos” (pronuncia-se gáu-tchos) são os uruguaios e grande parte dos argentinos.

Assim, se a imprecisão avulta, cresce também a necessidade de emprestar mais atributos identitários ao gentílico, a fim de definir os contornos de uma personalidade singular e exclusiva.

Que tal trazer do passado recortes plásticos para dar-lhe espessura e densidade histórica? A guerra civil de 1835-1845 contra o Império da família Bragança pode ser uma boa ideia. Tem muitos ingredientes épicos, tintas republicanas, espírito indômito, traços libertários, uma subjetividade não contaminada pela cultura etnocêntrica, etcetera, que podem formar um nexo neste constructo mítico que se está moldando meio às cegas.

Como em toda mitologia, foram sendo costurados elementos portadores de significado e que representam a realidade. É a bricolagem de Claude Lévi-Strauss. Uma vasta colcha de retalhos do real, improvisados de forma a combinar um todo que guarda coerência com o passado, mesmo que parte deles seja ficção, parte metalinguagem, parte historiografia, parte contingência, parte realidade transfigurada, parte ideologia, parte má consciência, parte fetichismo, parte gabolice, e por aí vai. O gaúcho, portanto, é uma obra em aberto, e por isso, em disputa. Uma obra que flutua, uma “ideia feita” (Flaubert) e refeita constantemente pelos seus sustentadores (ou mesmo adversários, por que não?).

Brincando um pouco, é possível dizer que o gaúcho (à moda de Michel Foucault no prefácio de As palavras e as coisas, onde cita Jorge Luis Borges) está catalogado como “uma certa enciclopédia chinesa onde está escrito que os animais [os gaúchos] se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b) embalsamados, c) domesticados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães em liberdade, h) incluídos na presente classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pelo de camelo, l) etcetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas”.

Quer dizer, cabe qualquer disparate para identificar esse “tipo ideal” (Weber) do bloco no poder sul-rio-grandense.

Semanas atrás, uma empresa midiática familial sulina, de grande influência no poder e no senso comum local, achou por bem em consultar os seus leitores/consumidores sobre quais seriam os principais personagens históricos do Estado, como se o senso comum dominasse de forma segura esse universo historiográfico e a partir disso pudesse fazer a classificação do panteão pretendido pela empresa de entretenimento. Por óbvio, havia uma cartela de nomes passíveis de representarem a farsa midiática, quase todos de ficção, alguns de ficção romanesca mesmo, como uma certa namorada do mercenário italiano Giuseppe Garibaldi, que hoje está entronizada como figura fundante da nossa “pequena pátria” (Comte).

Já se vê, pois, que há permissão para que qualquer indivíduo ou grupo incida nessa bricolagem mítica que é o constructo do gaúcho. É evidente que o pensamento hegemônico tira vantagem nessa disputa, afinal, detém a quase absoluta totalidade das mídias conhecidas, o Parlamento, o Executivo, o Judiciário, as Universidades, a publicidade, e uma formidável capilaridade no meio social, através da escola formal, clubes, associações, igrejas, entidades patronais, e mesmo sindicatos de empregados, etc.

Mas tem um componente neurótico nessa opção pelo tradicionalismo. Sim, porque entre dois tradicionalismos, escolheu-se o mais rústico e rasteiro. A que tradicionalismo nos referimos? Ora, o tradicionalismo vencedor é aquele filiado à corrente farroupilha de Bento Gonçalves da Silva, a tradição hegemonizada, portanto subalterna, é a de Julio Prates de Castilhos (ao lado), o responsável por um movimento político burguês que ainda no século 19 projetou o Rio Grande do Sul no século 20.

Hoje, predomina um ethos que corresponde à tradição imposta por um antigo ladrão de equínos e bovinos, Bento Gonçalves da Silva. São esses traços psicossociais que estão no poder no Estado, agora. A tradição representada pelo burguês modernizador, revolucionário (no estrito senso do vocábulo), austero e incorruptível, que foi Castilhos, está subordinada ao pragmatismo mais rebaixado e deletério. Informe-se que Julio de Castilhos preferiu as dificuldades materiais e contingentes do que advogar para sobreviver, depois que foi alijado do poder. Alegava que não poderia - moralmente - sequer peticionar a um magistrado que fora nomeado por ele quando chefe do Executivo estadual.

Esse modelo político-moral está arquivado no Rio Grande, em favor de um padrão inspirado no abigeato e na apropriação indébita do público e do privado.

Se o Rio Grande chegou primeiro ao século 20 (antes mesmo do resto do País), hoje, sai por último do mesmo século. O Brasil, aos trancos e barrancos, e de forma parcial, já chegou ao século 21, mas o RS se arrasta e se enxovalha no pântano a que foi conduzido pela hipertrofia do pragmatismo maragato, cuja matriz político-ideológica foi forjada durante o século 19, depois da guerra civil de 1835, e se estendeu até 1891, no dia 14 de julho quando é proclamada a Constituição castilhista que induz a modernização burguesa e a promoção geral e complexa da província fronteiriça sulina.

O castilhismo-borgismo promoveu uma autêntica revolução burguesa no Estado. Algo que o próprio Brasil experimentaria somente depois de 1930, com a chegada de Getúlio Vargas (ao lado) ao poder. Se nós tivemos uma revolução burguesa do tipo clássica, cruenta, que modificou radicalmente o poder regional, modernizando-o e aportando valores republicanos, ainda que não-democráticos, o Brasil não a teve. A modernização do País e a institucionalização do Estado, bem como o processo de industrialização, foram conquistas, não da burguesia, mas da iniciativa do próprio Vargas - forjado e projetado no sistema castilhista sul-rio-grandense.

Assim, festejamos o 20 de Setembro, por um capricho rançoso dos perdedores de 1893 (e que estiveram no poder durante toda a segunda metade do século 19 e só souberam se apropriar de terras devolutas do Estado monárquico, especialmente na região da Campanha).

Por que não festejamos o 14 de Julho de 1891? Justo a data da proclamação da Constituição republicana. Esta data é o dia fundante da verdadeira república rio-grandense. Por que festejamos a outra, a república farrapa, que admitia o escravagismo e tolerava todas as religiões, desde que fosse a católica romana? Uma falsa república fundada por falsos líderes, os mesmos que assinam o vergonhoso pacto de Ponche Verde com o Império dos Bragança, e de quebra recebem uma polpuda “indenização”. É caso único no mundo, o vencido receber indenização do vencedor. A rigor, o Império comprou a “rebeldia” dos farroupilhas, e estes se venderam pelo vil metal.

Artigo de Cristóvão Feil publicado neste blog DG em 20 de setembro de 2009. Estamos republicando-o a pedido de leitores.

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domingo, 25 de setembro de 2011

A maldição conservadora e a invenção do guasca by Cristóvão Feil

Antes de entrar no tema que quero comentar, chamo a atenção para o “Desfile Cívico-Militar do Vinte de Setembro” (conforme consta da programação dos seus organizadores, os dirigentes do MTG – Movimento Tradicionalista Gaúcho) que está se desenrolando hoje, precisamente 20 de setembro de 2011.

Quero sublinhar a ênfase na expressão “cívico-militar” dado pelo MTG, em pleno século 21. Me explico. Ninguém desconhece a filiação positivista-comtiana dos republicanos brasileiros, na segunda metade do século 19. No Rio Grande do Sul, onde a República aconteceu depois de uma revolução cruenta que durou de 1893 a 1895, os positivistas foram mais radicais e, por isso, mais exitosos do que no resto do Brasil. Julio de Castilhos e os militantes do Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) modificaram completamente o cenário político e social do estado mais meridional do País. No RS não houve a chamada troca de placa: sai a Monarquia dos Bragança, entra a República constitucional. Aqui, houve a mais completa e absoluta troca da elite no poder. Saem os velhos estancieiros pecuaristas da Campanha, entra uma composição de classes formada por uma pequena burguesia urbana, uma classe média rural, profissionais liberais e colonos de origem europeia da região serrana.

Os positivistas sulinos, fiéis aos ensinamentos dogmáticos de Auguste Comte, propugnavam – como o mestre – pela superação das fases pregressas da Humanidade. À fase militar-feudal deve seguir-se a fase industrial da Humanidade. Ou seja, à fase militar corresponderia a insurreição farroupilha de 1835-45 contra o Império do Brasil, agora – com o advento republicano – estávamos, pois, na hora de criar condições para o desenvolvimento e o progresso material que se daria por um processo intensivo de industrialização manufatureira.

Vejam, pois, que os tradicionalistas do século 21 continuam com os olhos fixos num passado praticamente feudal, marcadamente militarista, embora não tenhamos experimentado, de forma hegemônica e total, esse modo de produção pré-capitalista no Brasil.

Um dos formuladores intelectuais do que chamamos de ordem delirante do atraso – o pensamento tradicionalista da estância – foi Ramiro Frota Barcellos. Na obra “Rio Grande, tradição e cultura” (1915), o santiaguense é de uma clareza solar quanto aos propósitos enfermiços do tradicionalismo estancieiro: “O que agora se verifica, mercê do atual movimento tradicionalista, é a transposição simbólica dos remanescentes dos ‘grupos locais’, com suas estâncias e seus galpões para o coração das cidades. Transposição simbólica, mas que fará sobreviver, na mais singular aculturação de todos os tempos, o Rio Grande latifundiário e pecuarista”.

Qualquer semelhança com o enclave da bombacha e da fumaça que anualmente acampa, no mês de Setembro, no Parque da Harmonia, em plena área central de Porto Alegre, não é mera coincidência. A “mais singular aculturação de todos os tempos”, como premonitoriamente afirma Barcellos. Neste caso, “aculturação” é sinônimo de regressismo e estagnação.

É sobre isso que eu quero comentar brevemente.

Quando estudantes em São Paulo, Júlio de Castilhos e Assis Brasil chegaram a fundar um chamado “Clube 20 de Setembro”, que promoveu estudos – com algumas publicações - sobre o movimento farroupilha da primeira metade do século 19. Curiosamente, Castilhos abandonou as pesquisas sobre a guerra civil que varreu o Rio Grande por dez longos anos. Assis, em 1882, publicou a obra “História da República Rio-Grandense”. Por algum motivo, carente de melhores investigações, tanto os positivistas do PRR, quanto os liberais sulinos não foram muito enfáticos no culto farrapo. Tal fenômeno veio a ocorrer somente depois da Segunda Guerra, em Porto Alegre, no meio estudantil secundarista urbano do Colégio Estadual Julio de Castilhos. Daí se difundiu como rastilho de pólvora sob a forma dos onipresentes Centro de Tradição Gaúcho – CTG, que são clubes de convivência social onde se cultua o passado sob a forma fixa da mitologia farrapa, tendo como matriz formal a estética e o ethos do latifúndio da pecuária extensiva de exportação – subordinado à cadeia mercantil dos interesses hegemônicos ingleses na América do Sul. Quando os tradicionalistas se ufanam do pretensioso espírito autônomo e emancipado do chamado ‘gaúcho’ tout court, se referem ao Império dos Bragança, mas esquecem a dependência econômica e subordinação negocial estrita com os interesses ingleses, via portos de escoamento no Prata (Montevideo e Buenos Aires).

[Das relevantes realizações modernizantes do castilhismo-borgismo foram a estatização e incremento do porto de Rio Grande, bem como a encampação das ferrovias controladas por capitais europeus, de forma a dotar o estado de infraestrutura e fomentar o desenvolvimento, sem depender do Rio ou do Prata.]

A grande data a comemorar no Rio Grande do Sul, pelo lado do senso comum, é o 20 de Setembro, que marca o início da insurreição farroupilha (é um equívoco chamá-la de “revolução”, uma vez que os rebeldes foram derrotados pelo Império e não ocorreu nenhuma modificação política, social ou econômica na província sulina depois de 1º de março de 1845, na chamada Paz de Ponche Verde). No entanto, se houve revolução no sentido rigoroso e clássico do termo, esta ocorreu a partir da promulgação da Constituição Rio-Grandense, e da posse do governador (então, presidente do Estado) Julio de Castilhos, no dia 14 de julho de 1891. Meses depois, os conservadores e latifundiários alijados do poder, eternos aliados e sustentáculos da Monarquia, deram início à luta armada contra os jovens que governavam o Rio Grande (Castilhos tinha 30 anos quando assume a presidência do estado). A partir da revolução cruenta, se inicia um processo de grandes modificações e modernizações no RS. Em 1902, já com Borges de Medeiros no poder, depois da morte precoce de Castilhos, o estado passou a tributar com impostos progressivos as terras privadas, bem como reaver dos estancieiros as imensas glebas públicas apropriadas ilegalmente durante todo o século 19.

A hegemonia política do castilhismo-borgismo perdura até a década de 1930. Getúlio Vargas foi presidente do estado de 1928 a 1930, quando sai para o Catete, e já deixa um governo mais conciliador com os conservadores da Campanha.

É intrigante, pois, que a apropriação do imaginário social tenha se dado pelo lado dos conservadores, através do simbolismo inventado do 20 de Setembro, e não pelas forças burguesas, progressistas e renovadoras do Rio Grande do Sul, que seria pelo 14 de Julho.

Eric Hobsbawn e Terence Ranger que estudaram o fenômeno da chamada “invenção das tradições” suspeitam que quando ocorrem mudanças sociais muito bruscas e profundas, produzindo novos padrões com os quais essas tradições são incompatíveis, inventam-se novas tradições e novos imaginários de identidade social e cultural. Para os dois autores britânicos, a teoria da modernização pode sim conceber que as mudanças operadas pela infraestrutura da sociedade demandem tradições inventadas no plano da superestrutura.

Neste sentido, a revolução burguesa positivista-castilhista de inspiração saint-simoniana, introdutora do Estado-Providência, mobilizou somente as instâncias da infraestrutura (base material e econômica), deixando uma vasta lacuna, um boqueirão ideológico, diríamos, na esfera da superestrutura.

Assim, teria restado um formidável vácuo em distintos setores da vida social e no espírito dos indivíduos, como nas artes, no pensamento político, no Direito, na identidade, nas subjetividades individuais e de grupos, na cultura e no imaginário como um todo. O homem é, antes de tudo, um animal simbólico, e este domínio da razão e da cultura foi deixado vago, motivado, talvez, pelas duras urgências da vida real, mas também – suspeito eu – pelo próprio autoritarismo do poder estendido do castilhismo-borgismo.

O tradicionalismo seria, assim, um desagravo mítico-ideológico dos derrotados de 1893/95, os mesmos derrotados de Ponche Verde. Uma vingança de classe – a do latifúndio subalterno e associado – contra a modernização burguesa do positivismo pampeiro, seria isso? Uma maldição contra o futuro do Rio Grande? “Vocês estarão condenados a viver no passado, em meio à fumaça e o cheiro de esterco, festejando derrotas, e considerando heróico, cavalgando durezas e incomodidades, e considerando genuíno, fruindo uma arte primária e mambembe, e considerando autêntico, cultuando velhos ressentimentos e considerando lúcido, ignorando o rico mosaico cultural da província e considerando o tradicionalismo de matriz latifundiária como a síntese de tudo. Vocês são os gaúchos, velhos vagabundos redimidos, são os heróis de um passado que nunca existiu” – foi a sentença de fogo dos que trouxeram o tradicionalismo como vanguarda do atraso no pensamento guasca.

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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

PORTUGAL E OS COM “RATING” AAA by Manuel Pinho

Portugal e os países com ‘rating’ AAA
Manuel Pinho

Portugal vive uma situação grave cujas causas são complexas e têm a ver com o curto e o longo prazo, com questões nacionais e internacionais, com a esfera real e financeira da economia, etc.

Não há nada pior do que criar uma narrativa da crise simples, mas errada, com base em falácias.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de publicar o Fiscal Monitor com dados que, das duas, uma: ou não confirmam quatro argumentos que estão na moda para explicar a crise ou mostram que são usados de maneira falaciosa: i) “a divida pública atingiu o valor mais alto desde o pós-Guerra, o que tornou inevitável pedir ajuda externa”; ii) “é por termos uma grande dívida pública que o ‘rating’ de Portugal está próximo de lixo”; iii) “o peso da despesa pública é o grande responsável pelo baixo crescimento da economia porque prejudica o financiamento do sector privado”; iv) “os encargos futuros com a segurança social vão pesar mais sobre as gerações futuras em Portugal do que nos outros países”.

Primeiro argumento: a dívida pública atingiu o valor mais alto desde o pós-Guerra, o que tornou inevitável pedir ajuda externa.

A verdade é que a dívida pública está ao nível mais alto desde o pós-Guerra em Portugal… e nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha e Japão, que têm um ‘rating’ de AAA. Tal deve-se a duas razões principais. Numa 1ª fase, verificou-se uma lenta subida da dívida pública em quase todos os países industrializados. Numa 2ª fase, que começou com a crise financeira mundial de 2008, esta subida acelerou em resultado do forte aumento dos défices orçamentais por causa da recessão, das medidas contra-cíclicas que na altura até o FMI recomendou e à socialização dos prejuízos causados pela banca. Por este critério, Obama, Merkel e Sócrates estão no mesmo saco.

Segundo argumento: é por termos uma grande dívida pública que o ‘rating’ de Portugal está próximo de lixo.

A divida pública expressa em % do PIB é menor em Portugal do que nos Estados Unidos e no Japão, semelhante à da Alemanha e da França e ligeiramente superior à do Reino Unido, o que de forma alguma justifica um tão grande diferencial de ‘ratings’ e custos de financiamento (Figura 1).

Este diferencial agravou-se muito desde o chumbo do PECIV, o que mostra que o mercado interpretou que esta decisão teve um efeito muito negativo numa economia que já estava fragilizada (quem acredita que o mercado processa a informação de uma maneira eficiente não pode fazer outra interpretação).

Terceiro: o peso da despesa pública é o grande responsável pelo baixo crescimento da economia porque prejudica o financiamento do sector privado.

Para que tal fosse verdade, seria necessário, primeiro, que a despesa pública tivesse um peso maior em Portugal do que nos países com ‘rating’ AAA com a qual nos estou a comparar e, segundo, que o crédito ao sector não financeiro não tivesse aumentado.

A figura 2 mostra que a despesa pública tem um peso na economia inferior em Portugal do que em França e semelhante ao Reino Unido e Alemanha e que a posição relativa não deverá mudar muito até 2,016. Por outro lado, os bancos portugueses aumentaram fortemente o crédito às empresas não financeiras entre os anos de 2000 e 2010 porque tiveram até recentemente grande facilidade em financiar -se nos mercados internacionais a um custo semelhante ao dos bancos alemães.

Quarto argumento: os encargos futuros com a segurança social vão pesar mais sobre as gerações futuras em Portugal do que nos outros países.

Dado o aumento da esperança de vida e da cobertura do sistema de pensões, as gerações podem receber uma pesada herança da actual geração nos países que forem incapazes de fazer reformas profundas, mas neste aspecto Portugal está relativamente bem colocado. Em Portugal, o aumento dos encargos futuros com pensões até 2050 tem um Valor Actual Líquido equivalente a 19% do PIB superior ao do Japão, da mesma ordem de grandeza da França, mas bastante inferior ao Reino Unido, Estados Unidos e Alemanha (figura 3).

Conclusão: Ouvi pessoas que respeito usarem estes quatro argumentos, mas os dados do FMI não os confirmam, não sendo isso que invalida a crise ser grave e todos sermos poucos para a resolver. Na Idade Média, quase não havia métodos de diagnóstico e os barbeiros e médicos sangravam os doentes com sanguessugas na esperança de que ficassem bons. Galeno até recomendava que quanto mais grave a doença mais sangue era preciso tirar, o que matava o doente em vez de o curar.

Felizmente, hoje em dia há outras formas de diagnosticar e tratar as doenças. Com a crise é o mesmo, não é com sanguessugas e sangrando a economia até ao limite que vamos resolver os problemas, mas aplicando a terapêutica adequada.

Figura 1: Divida pública, % do PIB    Figura 2: Peso da despesa pública no PIB    Figura 3: VAL do aumento dos encargos com pensões até 2050 em % do PIB

criado por prcarpenedo    19:20:53 — Arquivado em: Sem categoria

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Por que o carro é mais barato na Argentina e no Chile?

A ACARA, Associacion de Concessionários de Automotores De La Republica Argentina, divulgou no congresso dos distribuidores dos Estados Unidos (N.A.D.A), em São Francisco, em fevereiro deste ano, os valores comercializados do Corolla em três países:
No Brasil o carro custa US$ 37.636,00, na Argentina US$ 21.658,00 e nos EUA US$ 15.450,00.
Outro exemplo de causar revolta: o Jetta é vendido no México por R$ 32,5 mil. No Brasil esse carro custa R$ 65,7 mil.
Por que essa diferença? Vários dirigentes foram ouvidos com o objetivo de esclarecer o “fenômeno”. Alguns “explicaram”, mas não justificaram. Outros se negaram a falar do assunto.
Quer mais? O Gol I-Motion com airbags e ABS fabricado no Brasil é vendido no Chile por R$ 29 mil. Aqui custa R$ 46 mil.
O Corolla não é exceção. O Kia Soul, fabricado na Coréia, custa US$ 18 mil no Paraguai e US$ 33 mil no Brasil. Não há imposto que justifique tamanha diferença de preço.
A Volkswagen não explica a diferença de preço entre os dois países. Solicitada pela reportagem, enviou o seguinte comunicado:
“As principais razões para a diferença de preços do veículo no Chile e no Brasil podem ser atribuídas à diferença tributária e tarifária entre os dois países e também à variação cambial”.
Questionada, a empresa enviou nova explicação:
“As condições relacionadas aos contratos de exportação são temas estratégicos e abordados exclusivamente entre as partes envolvidas”.
Nenhum dirigente contesta o fato de o carro brasileiro ser caro. Mas o assunto é tão evitado que até mesmo consultores independentes não arriscam a falar, como o nosso entrevistado, um ex-executivo de uma grande montadora, hoje sócio de uma consultoria, e que pediu para não ser identificado.
Ele explicou que no segmento B do mercado, onde estão os carros de entrada, Corsa, Palio, Fiesta, Gol, a margem de lucro não é tão grande, porque as fábricas ganham no volume de venda e na lealdade à marca. Mas nos segmentos superiores o lucro é bem maior.
O que faz a fábrica ter um lucro maior no Brasil do que no México, segundo consultor, é o fato do México ter um “mercado mais competitivo” (?).
Um dirigente da Honda, ouvido em off, responsabilizou o “drawback”, para explicar a diferença de preço do City vendido no Brasil e no México. O “drawback” é a devolução do imposto cobrado pelo Brasil na importação de peças e componentes importados para a produção do carro. Quando esse carro é exportado, o imposto que incidiu sobre esses componentes é devolvido, de forma que o “valor base” de exportação é menor do que o custo industrial, isto é: o City é exportado para o México por um valor menor do que os R$ 20,3 mil. Mas quanto é o valor dos impostos das peças importadas usadas no City feito em Sumaré? A fonte da Honda não responde, assim como outros dirigentes da indústria se negam a falar do assunto.
Mas quanto poderá ser o custo dos equipamentos importados no City? Com certeza é menor do que a diferença de preço entre o carro vendido no Brasil e no México (R$ 15 mil).
A conta não bate e as montadoras não ajudam a resolver a equação. Apesar da grande concorrência, nenhuma das montadoras ousa baixar os preços dos seus produtos. Uma vez estabelecido, ninguém quer abrir mão do apetitoso “Lucro Brasil”.
Ouvido pela AutoInforme, quando esteve em visita a Manaus, o presidente mundial da Honda, Takanobu Ito, respondeu que, retirando os impostos, o preço do carro no Brasil é mais caro que em outros países porque “aqui se pratica um preço mais próximo da realidade. Lá fora é mais sacrificado vender automóveis”.
Ele disse que o fator câmbio pesa na composição do preço do carro no Brasil, mas lembrou que o que conta é o valor percebido. “O que vale é o preço que o mercado paga”.

E porque o consumidor brasileiro paga mais do que os outros?

“Eu também queria entender – respondeu Takanobu Ito – a verdade é que o Brasil tem um custo de vida muito alto. Até os sanduíches do McDonalds aqui são os mais caros do mundo”.

“Se a moeda for o Big Mac – confirmou Sérgio Habib, que foi presidente da Citroën e hoje é importador da chinesa JAC - o custo de vida do brasileiro é o mais caro do mundo. O sanduíche custa US$ 3,60 lá e R$ 14,00 aqui”. Sérgio Habib investigou o mercado chinês durante um ano e meio à procura por uma marca que pudesse representar no Brasil. E descobriu que o governo chinês não dá subsídio à indústria automobilística; que o salário dos engenheiros e dos operários chineses não são menores do que os dos brasileiros.
“Tem muita coisa errada no Brasil – disse Habib, não é só o preço do carro que é caro. Um galpão na China custa R$ 400,00 o metro quadrado, no Brasil custa R$ 1,2 mil. O frete de Xangai e Pequim custa US$ 160,00 e de São Paulo a Salvador R$ 1,8 mil”.
Para o presidente da PSA Peugeot Citroën, Carlos Gomes, os preços dos carros no Brasil são determinados pela Fiat e pela Volkswagen. “As demais montadoras seguem o patamar traçado pelas líderes, donas dos maiores volumes de venda e referência do mercado”, disse.
Fazendo uma comparação grosseira, ele citou o mercado da moda, talvez o que mais dita preço e o que mais distorce a relação custo e preço:
“Me diga, por que a Louis Vuitton deveria baixar os preços das suas bolsas?”, questionou.
Ele se refere ao “valor percebido” pelo cliente. É isso que vale.
“O preço não tem nada a ver com o custo do produto. Quem define o preço é o mercado”, disse um executivo da Mercedes-Benz, para explicar porque o brasileiro paga R$ 265.00,00 por uma ML 350, que nos Estados Unidos custa o equivalente a R$ 75 mil.“Por que baixar o preço se o consumidor paga?”, explicou o executivo.

criado por prcarpenedo    14:46:57 — Arquivado em: POLITICA & ECONOMIA

domingo, 17 de julho de 2011

O Brasil é a antítese da China

O Brasil é a antítese da China, diz Ruchir Sharma, diretor de mercados emergentes do banco de investimento Morgan Stanley em um artigo para a revista norte-americana Time Magazine. Ele brinca com a frase “Deus é brasileiro”, e diz que se o País não realizar reformas necessárias será difícil crescer mesmo os 4% esperados para os próximos anos. “Se conseguir mais que isso, então talvez Deus realmente seja brasileiro,” afirma.

São Paulo: Restaurantes são mais caros do que em Paris, diz Ruchir Sharma, do Morgan Stanley

Sharma compara o Brasil com a China, afirmando que enquanto o país asiático possui uma moeda barata, um alto nível de poupança e um baixo custo de capital, “o Brasil é o oposto em todos os aspectos, inclusive no que deveria fazer para continuar crescendo.”

Enquanto a China precisa reduzir sua compulsão por investimentos, ter uma rede melhor de seguridade social e deixar sua moeda valorizar um pouco, o Brasil precisa de menos gastos com seguridade social, mais investimentos e de uma moeda mais barata, defende Sharma.

No artigo, chamado de “Brasil, o não-China”, ele fala do grande fluxo de capital estrangeiro que vem entrando no Brasil, o que vem contribuindo para a valorização do real, e “o que pode ser sentido em uma viagem ao País”.

“Quartos de hotel em Rio de Janeiro custam mais do que no sul da França. Restaurantes em São Paulo são mais caros do que em Paris. Bellinis são mais baratos em Veneza. Apartamentos no Leblon vendem mais do que em frente ao Central Park,” diz Sharma.

Em seguida, afirma que “há algo errado” quando um país de renda média tem uma moeda de país rico. “A sobrevalorização do real é um sintoma de economia seriamente desequilibrada.”

A entrada de dólares no País, ele explica, é impulsinada pelo alto custo das commodities e do alto juro brasileiro, mas ele alerta para a formação de uma bolha de dinheiro especulativo (“hot money”) no Brasil. Segundo Sharma, apenas uma parte da riqueza que chega no território brasileiro é investida em infraestrutura. Ele lembra também que o País usa somente 3% de suas receitas para este fim. “Não admira que exista morosidade excessiva nos portos e nas estradas. Agora é comum para altos executivos brasileiros viajar por toda São Paulo de helicóptero, a fim de evitar o tráfego da cidade,” completa.

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O chefe de mercados emergentes do Morgan Stanley lembra que o Brasil teve em sua história recente um período de hiperinflação e estagnação econômica, mas que ressurgiu. “Sua taxa de crescimento dobrou nos últimos anos. Mas agora o Brasil está atolado pelo fardo do “grande governo,” acrescenta.

Sharma destaca que os gastos do governo são altos, de 35% da economia - em comparação com uma média de 25% em outros mercados emergentes. “A maior parte dele vai para a pensões generosas e programas de previdência, em vez de para a construção de estradas ou melhorar as escolas.” Ele menciona ainda que o Brasil é mal posicionado em rankings de educação, “aparecendo depois da maioria dos outros países de renda média.”

O artigo afirma que os investidores estrangeiros “encobrem essas deficiências” e concentram-se na estabilidade que o Brasil tem alcançado desde a crise dos anos 80 e 90, e nas commodities, “do minério de ferro ao café”, além do esperado petróleo de águas profundas. Mas acrescenta que a “moda” das commodities acaba contribuindo para elevar o valor do real a um nível que “fere outras indústrias”.

Como os brasileiros estão gastando muito com importações, diz Sharma, o saldo da conta corrente está no vermelho. “Se os preços das commodities caírem, esse buraco se tornará incontrolável,” diz. Tudo isso, conclui o diretor do Morgan Stanley, faz do Brasil a antítese da China.

criado por prcarpenedo    21:06:52 — Arquivado em: FRAGMENTOS

sábado, 25 de junho de 2011

DEMOCRACIA REAL

As atuais manifestações que sacodem a Europa trouxeram uma reivindicação que há muito não se ouvia em países como Reino Unido, Espanha, França: democracia real. Há algo de importante aqui.

Pois poderíamos nos perguntar o que haveria de fictício na democracia de países que aprendemos a ver como exemplos de sistemas políticos consolidados. Por que largas parcelas de sua população compreendem que há algo no jogo democrático que parece ter se reduzido exatamente à condição de mero jogo?

Talvez tais manifestantes entenderam que a democracia parlamentar é incapaz de impor limites e de resistir aos interesses do sistema financeiro. Ela é incapaz de defender as populações quando os agentes financeiros começam a operar, de modo cinicamente claro, a partir dos princípios de um capitalismo de espoliação dos recursos públicos.

Não é por outra razão que se ouve, cada vez mais, a afirmação de que a alternância de partidos no poder não implica mais alternativas de modelos de compreensão dos conflitos e políticas sociais. Por isso, o cansaço em relação aos partidos tradicionais não é sinal do esgotamento da política. Na verdade, ele é o sintoma mais evidente de uma demanda de política, de uma demanda de politização da economia.

Em momentos assim, devemos lembrar que a democracia parlamentar não é o último capítulo da democracia efetiva. A Islândia tem algo a nos ensinar sobre isso.

Um dos primeiros países atingidos pela crise econômica de 2008, a Islândia decidiu que o uso de dinheiro público para indenizar bancos seria objeto de plebiscito. Maneira de recuperar um conceito decisivo, mas bem esquecido, da democracia, a saber, a soberania popular. O resultado foi o apoio massivo ao calote.

Mesmo sabendo dos riscos de tal decisão, o povo islandês preferiu realizar um princípio básico da soberania popular: quem paga a orquestra, escolhe a música.

Se a conta vai para a população, é ela quem deve decidir o que fazer, e não um conjunto de tecnocratas que terão seus empregos garantidos nos bancos ou de parlamentares cujas campanhas são financiadas por esses bancos. Como disse o presidente islandês, Ólafur Ragnar Grímsson: “A Islândia é uma democracia, não um sistema financeiro”.

O interessante é que, com isso, saímos dos impasses da democracia parlamentar para dar um passo decisivo em direção a uma democracia plebiscitária capaz de institucionalizar a manifestação necessária da soberania popular.

É tal processo que nos coloca nas vias de uma democracia real. Ele é a condição primeira para sair da crise. Pois a verdadeira questão que tal crise nos coloca é política: que regime político é este que permitiu um descalabro deste tamanho na calada da noite?

Artigo do professor Vladimir Safatle, do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). Publicado hoje na Folha.

criado por prcarpenedo    19:47:16 — Arquivado em: Sem categoria

terça-feira, 31 de maio de 2011

Mapa de outorgas: saiba quem são os diretores e sócios de canais de rádio e tv no Brasil

O Ministério das Comunicações disponibilizou em sua página os dados completos referentes à outorga de canais de rádio e televisão no Brasil, incluindo os nomes dos donos e a composição acionária de cada empresa. A lista traz uma relação das empresas por Estado e também a relação de sócios e diretores por entidade. O Ministério também está construindo um sistema que informará o andamento não apenas das renovações de outorgas, mas de todos os atos de pós-outorga. Os dados mostram a extensão do domínio da RBS no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

No dia 5 de outubro de 2009, o procurador da República em Canoas, Pedro Antonio Roso, solicitou ao presidente do Grupo RBS, Nelson Pacheco Sirotsky, o número de veículos de TV e rádio que a empresa possui no Rio Grande do Sul, bem como de suas afiliadas, emissoras e repetidoras. O pedido fazia parte de um procedimento administrativo instaurado pelo Ministério Público Federal para “apurar ocorrência de possível prática de monopólio e irregularidades nas concessões de rádio e televisão por parte do Grupo RBS no Rio Grande do Sul”. No dia 25 de novembro de 2009, o MP Federal realizou uma audiência pública na Câmara de Vereadores de Canoas, quando foi divulgada a resposta da RBS ao requerimento.

O documento assinado pela advogada Fernanda Gutheil, afirmou que a RBS Participações S.A. detém apenas duas concessões de serviços de radiodifusão de som e imagem (TV) – Canal 12, em Porto Alegre; e Canal 8, em Caxias do Sul. Além disso, informa que a RBS Rádios Participações S.A. tem três permissões indiretas, duas FM e uma Ondas Médias (OM).

Já o site institucional da RBS informa que a empresa possui 18 emissoras de TV aberta (12 no Rio Grande do Sul e 6 em Santa Catarina), além de 2 emissoras de “tv comunitária” e uma emissora segmentada focada no agronegócio (21 no total, portanto, nos dois Estados). A RBS apresenta-se como “a maior rede regional de TV do país com 18 emissoras distribuídas no RS e em SC, com 85% da programação da Rede Globo e 15% voltada ao público local”. Além disso, possui ainda:

25 emissoras de rádio, 8 jornais diários, 4 portais na internet, uma editora, uma gráfica, uma gravadora, uma empresa de logística, uma empresa de marketing e relacionamento com o público jovem, participação em uma empresa de móbile marketing e uma Fundação de Responsabilidade Social.

Na audiência pública realizada em Canoas questionou-se: se a RBS afirma ter apenas duas concessões de TV no Rio Grande do Sul, a quem pertencem as outras 10 emissoras de TV aberta que são mencionadas no site institucional da empresa? Emissoras como a RBS TV Passo Fundo, RBS TV Santa Maria, RBS TV Santa Rosa, entre outras. Formalmente, essas emissoras estão abrigadas sob outro CNPJ e a RBS usa esse argumento para afirmar que não está infringindo a lei que estabelece no máximo duas emissoras por titular. Argumento, aliás, repetido por outras empresas em outros Estados do Brasil. O Decreto-lei 236/67, em seu artigo 12, cabe lembrar, limita em duas concessões no máximo por proprietário dentro do mesmo Estado.

“A radiodifusão – emissora de rádio e TV – deve estar em nome de pessoa física, não de pessoa jurídica, e cada pessoa só pode ter duas por estado. Daí, o que eles fazem é colocar em nome de pessoas da família”, observou o procurador Celso Três, autor de uma ação contra a RBS em Santa Catarina por prática de monopólio. A página do Ministério das Comunicações identifica a relação completa de sócios e diretores de cada uma dessas empresas.

criado por prcarpenedo    22:48:05 — Arquivado em: Blogs, FRAGMENTOS

quinta-feira, 19 de maio de 2011

LEGA : SENZA MILANO SI ARCHIVIA BERLUSCONI

La Lega si prepara ad elezioni anticipate. Chi cura l’agenda di uno dei big del partito ha notato che da qualche giorno sono state riprogrammate molte date facendo “come se” fossimo a dieci mesi dal voto. Umberto Bossi, del resto, ci sarebbe andato già a novembre e ora, dopo il brutto segnale arrivato lunedì, ha rotto gli indugi. Se con i ballottaggi venisse meno la maggioranza il Carroccio punterebbe ad un governo di transizione a guida Tremonti che duri giusto il tempo di portare a termine il federalismo fiscale (tra due settimane la delega verrà prorogata di soli sei mesi) per andare alle urne nella primavera 2012. La Lega ha già pronto per quell’appuntamento un proprio candidato premier, Roberto Maroni (apparso lunedì pomeriggio incredibilmente sorridente visti i risultati), tenendo invece in serbo per il ministro dell’economia il ruolo di capo di un governo di unità nazionale in caso di pareggio al Senato. Con il suo “non affonderemo con il Pdl” ieri Bossi ha gettato letteralmente nel panico una maggioranza che solo poche ore prima si era già mostrata in grave crisi a Montecitorio dove è stata battuta ripetutamente. Il motivo contingente va ricercato nelle assenze dei tanti, non solo Responsabili (in via di disfacimento), che hanno capito come per loro non ci sarà mai più alcuna nomina a sottosegretario, dal momento che la legge per l’allargamento del governo è stata messa in cantina per conclamata impopolarità dagli elettori di Milano, come hanno fatto notare al Pdl i leghisti. Ma quelle sconfitte parlamentari sono solo la spia di un crisi più generale che aspetta di esplodere subito dopo il secondo turno delle comunali milanesi. In tal senso il messaggio recapitato ieri dal Senatur è molto chiaro: se si perde finisce l’era Berlusconi. E detto ad un elettorato che dalle frequenze di Radio Padania non fa che urlare la propria insofferenza per il Cavaliere, suona come un segnale di smobilitazione,  un invito a non recarsi alle urne.

criado por prcarpenedo    21:12:37 — Arquivado em: POLITICA EXTERNA
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